Não queria terminar o ano sem dar um "alô" por aqui. Afinal, a convite da Arminda - querida, querida -, eu também cogito! E achei fenomenal a ideia de termos esse espaço para trocarmos impressões de nossas trilhas pelo mundo. O mundo da educação escolar, mas, também, o da educação cotidiana.
Vi a foto da Marina, essa fofura de bailarina, e encontrei o mote para entrar nesse papo. Porque é fato: as crianças sempre nos trazem o sentido do Natal. Aquele, de base. No turbilhão da vida adulta e com os sobrinhos mais novos já tendo completado uma década de vida, eu tinha tomado um pouco de distância do que era isso. Esse Natal, com Nina super-presente, teve sabor de infância. Troca, magia, encantamento, partilha, afeto.
Há três semanas, ela passeia pela cidade chamando o seu amigo Noel. Assim mesmo: Noel, com toda a intimidade. Começou como Papai, mas esse, parece, é só o Ricardo. Passou pra vovô, mas também não colou. Rapidamente, virou Noel. Festeja todos os que vê pela frente e guardou um lugar para ele no carro, à sua esquerda, atrás da mamãe - que, teimosa, continuou deixando a bolsa no banco, até que ela jogou para o chão, para ver se o Noel se encorajava a entrar.
À meia noite do dia 24, na casa da avó, roadeada de uma família barulhenta, ela bateu palmas no aniversário de Jesus. Não sabe bem quem é, mas gostou do neném junto com a mamãe e o papai dele. Movimento com afeto, muito bom. Ficou acordada até a madrugada, no meio da farra, tocando o piano que herdou da Bubu e chamando um bocado de gente para tocar com ela, cada um a seu turno. Se embaralhou no meio das pernas das pessoas e achou aquilo tudo muito legal. Ela não gosta de muita gente em cima dela. Mas gosta de muita gente. Aliás, gosta muito de gente. E, sobretudo, de muito afeto.
Nina não pediu presente ao Noel. Ela é muito pequena, o mundo não a convenceu de consumir ainda, e nós não quisemos dar esse sentido ao Natal. Levamos a pequena para ver o velhinho em um monte de lugares: nos shoppings, nas casas das pessoas, nas praças. Na Praça do Papa, aliás, ela enlouqueceu quando ele veio descendo as escadas após o Presépio Cantado. Acenava e gritava: "- Noel, sou a Nina!" Três vezes foi, três vezes amou. Ela curtiu muito, muito mesmo a presença dessa figura por esses dias. Ele virou um amigo.
E foi com esse sentimento de amizade que Nina nos educou, a mim e ao pai dela, na manhã do dia 25 de dezembro. Quando acordou, nós contamos que o Noel tinha passado lá em casa e deixado uma coisa para ela debaixo da árvore de Natal. A pequena correu para a sala e olhou para a árvore. O presente estava lá, mas ela passou direto. Foi até a porta, bateu com as costas das mãos - como a madrinha ensinou - e gritou lá pra fora, aflita: "- Noel, Noel... sou a Nina!"
Ricardo e eu trocamos um olhar entre encantado e envergonhado. A Nina aprendeu, mais do que nós, a lição que demos. Não era o presente que importava aquela manhã. Era a presença dele, do amigo. Era, talvez, ele aceitar o convite para sentar ao lado dela no carro e reconhecer "a Nina". Eram o encontro, a amizade, a troca, o afeto.
E a gente entendeu Guimarães Rosa: "Mestre é aquele que, de repente, aprende".
Feliz Natal, em todos os dias de 2011, pra todos. E obrigada, Arminda, por nos dar de presente esse espaço de cogitar. Logo, existir.
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
sábado, 25 de dezembro de 2010
Amigos, esta é a Marina, minha netinha, fantasiada de bailarina. Penso que a foto de uma criança ilustra bem nossos sentimentos natalinos. Afinal, tudo que desejamos nessa época é a alegria das crianças, a fraternidade dos abraços familiares, os risos nos encontros com os amigos que desejamos rever. Espero que vocês tenham tido essas oportunidades e que tenham, também, um ano de 2011 calmo e proveitoso em realizações pessoais.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
DESAFIO
DESAFIO....
Diz a lenda bíblica que a serpente tentou Eva a comer o fruto proibido dizendo: “no dia em que o comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal”. Desde então, a questão do conhecimento tem preocupado o homem até os dias de hoje, passando por diferentes paradigmas e pontos de vista: o conhecimeto é simples? É uma mera descrição da realidade? Ou busca entender e explicar essa realidade? É quantificável? É relativo? É indutivo? É dedutivo? É prático? É teórico? É produzido experimentalmente nos laboratórios? É estável? Por meio dele chegamos a leis imutáveis? Ou pelo contrário, é dinâmico? Depedente do modus operandi de uma dada cultura ou sociedade? E o que é um homem sábio? É aquele que vive em paz consigo mesmo e com a natureza que rodeia? Ou é aquele que, pelo contrário, domina essa natureza e dela faz uso em proveito próprio? É aquele que produz tecnologia?
Atualmente diz-se que a inteligência é coletiva, difundindo-se em infinitos pontos que se espalham e se entrecruzam, como uma rede. Nessa rede não há conhecimentos melhores e nem piores, o prático e o teórico, o científico e o mágico se misturam, produzindo e reproduzindo novos e novos padrões, onde o virtual e o real perdem seus contornos próprios. Vivemos imersos num mundo marcado por hibridismos e também por diásporas e fundamentalismos. Esse é o novo mundo que temos diante dos nossos olhos e que nos apresenta, a cada dia, grandes desafios.
Sempre que paticipo de encontros e reuniões, essa imagem me vem à mente: penso que poderemos estreitar os pontos dessa rede e passarmos a produzir um pouco mais, mutiplicando esforços no sentido de tornar a nossa Educação mais exigente e mais moderna, mais adequada aos problemas que se apresentam ao conhecimento, nos dias de hoje. No entanto, a cada dia as escolas se tornam mais iguais e corriqueiras, dominadas pelo mercado e pela obsessão das avaliações externas, dos vestibulares.
Essa a principal razão de ser desse blog, essa minha maior expectativa. Daí, o desafio que lanço aos meus companheiros de trabalho, das escolas por onde andei: vamos relatar aqui um pouco das nossas experiências, tão diferentes e tão importantes? Vamos estreitar nossa rede, explotrando idéias, provocando discussões? Tenho receio de que o período tão fecundo de “novidades” em Educação, revigorado dos anos 60 em diante, se encerre, deixando vestígios apenas nas lembranças daqueles que o vivenciaram. O quadro de Dali que ilustra esse desafio, pelo que me consta, chama-se "A Persistência da Memória", que infelizmente, extingue-se com o tempo...Portanto, vamos trabalhar? Vamos enfrentar essa questão, difundindo no espaço virtual aquilo que acumulamos, durante anos, na nossa prática escolar, tão fecunda?
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Amigos, vejam que beleza o texto reproduzido a seguir. Não sou religiosa, mas é preciso reconhecer a importância das colocações do Frei Betto. Espero que gostem.
alteridade
Frei Betto
“Todo ser humano, dentro da perspectiva Judaica ou Cristâ, é dotado de dignidade pelo simples fato de ser vivo. Não só o ser humano, todo o universo”
O que é alteridade? É ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Quanto menos alteridade existe nas relações pessoais e sociais, mais conflitos ocorrem.
A nossa tendência é colonizar o outro, ou partir do princípio de que eu sei e ensino para ele. Ele não sabe. Eu sei melhor e sei mais do que ele. Toda a estrutura do ensino no Brasil, criticada pelo professor Paulo Freire, é fundada nessa concepção. O professor ensina e o aluno aprende. É evidente que nós sabemos algumas coisas e aqueles que não foram à escola sabem outras tantas, e graças a esta complementação vivemos em sociedade. Como disse um operário num curso de educação popular: “Sei que, como todo mundo, não sei muitas coisas.”
Numa sociedade como a brasileira, em que o apartheid é tão arraigado, predomina a concepção de que aqueles que fazem serviço braçal não sabem. No entanto, nós que fomos formados como anjos barrocos da Bahia e de Minas, que só têm cabeça e não têm corpo, não sabemos o que fazer das mãos. Passamos anos na escola, saímos com Ph.D., porém não sabemos cozinhar, costurar, trocar uma tomada ou um interruptor, identificar o defeito do automóvel... e nos consideramos eruditos. E o que é pior, não temos equilíbrio emocional para lidar com as relações de alteridade.
Daí por que, agora, substituíram o Q.I. para o Q.E., o Quociente Intelectual para o Quociente Emocional. Por quê? Porque as empresas estão constatando que há, entre seus altos funcionários, uns meninões infantilizados, que não conseguem lidar com o conflito, discutir com o colega de trabalho, receber uma advertência do chefe e, muito menos, fazer uma crítica ao chefe.
Bem, nem precisamos falar de empresa. Basta conferir na relação entre casais. Haja reações infantis...
Quem dera fosse levada à prática a idéia de, pelo menos a cada três meses, um setor da empresa fazer uma avaliação, dentro da metodologia de crítica e autocrítica. E que ninguém ficasse isento desta avaliação. Como Jesus um dia fez, ao reunir um grupo dos 12 e perguntou: “O que o povo pensa de mim”? E depois acrescentou: “E o que vocês pensam de mim?”
Quem, na cultura ocidental, melhor enfatizou a radical dignidade de cada ser humano, inclusive a sacralidade, foi Jesus. O sujeito pode ser paralítico, cego, imbecil, inútil, pecador, mas ele é templo vivo de Deus, é imagem e semelhança de Deus. Isso é uma herança da tradição hebraica. Todo ser humano, dentro da perspectiva judaica ou cristã, é dotado de dignidade pelo simples fato de ser vivo. Não só o ser humano, todo o Universo. Paulo, na Epístola aos Romanos, assinala: “Toda a Criação geme em dores de parto por sua redenção”.
Dentro desse quadro, o desafio que se coloca para nós é como transformar essas cinco instituições pilares da sociedade em que vivemos: família, escola, Estado (o espaço do poder público, da administração pública), Igreja (os espaços religiosos) e trabalho. Como torná-los comunidades de resgate da cidadania e de exercício da alteridade democrática? O desafio é transformar essas instituições naquilo que elas deveriam ser sempre: comunidades. E comunidades de alteridade.
Aqui entra a perspectiva da generosidade. Só existe generosidade na medida em que percebo o outro como outro e a diferença do outro em relação a mim. Então sou capaz de entrar em relação com ele pela única via possível - porque, se tirar essa via, caio no colonialismo, vou querer ser como ele ou que ele seja como sou - a via do amor, se quisermos usar uma expressão evangélica; a via do respeito, se quisermos usar uma expressão ética; a via do reconhecimento dos seus direitos, se quisermos usar uma expressão jurídica; a via do resgate do realce da sua dignidade como ser humano, se quisermos usar uma expressão moral. Ou seja, isso supõe a via mais curta da comunicação humana, que é o diálogo e a capacidade de entender o outro a partir da sua experiência de vida e da sua interioridade.
Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto - Autobiografia escolar” (Ática), entre outros livros.
Fonte: Estado de Minas - quinta feira, 08 de maio de 2003.
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